2000









Exposição integrada no projeto Galeria D. Ivone, comissariada por Rodrigo Vilhena
Matadouro Municipal de Caldas da Rainha, 2000

2000
Texto catálogo da exposição integrada no projeto coletivo Galeria D. Ivone
Caldas da Rainha Arte Contemporânea, 2000
Agora, quando vemos a fotografia retratar a própria fotógrafa, perguntamos se haverá aqui um último grito do retratado. E perguntamos se o artista será ainda o exorbitante para quem a faca é o melhor remédio.
Mas este narciso tornado arlequim é um fogo de artifício, uma surpresa calculada. Na verdade, uma fotografia não é uma fotocópia, é uma tatuagem naïf ou, de outro ponto de vista, uma pequena narrativa a duas cores.
A ideia de que a fotografia é uma janela para o mundo deve ser retocada: a fotografia é uma janela em que o interior da casa se reflecte ao mesmo tempo que o seu exterior. Não é um vidro, é um ecrã. É um espectáculo de luzes e de sombras.
Com gestos medidos, o sujeito da fotografia desdobra-se de modo a tornar-se o seu próprio objecto (e o espectador, mesmo que não conheça a artista, “sabe” que a figura feminina retratada é a da autora do retrato), por virtude do olhar que gela a lâmina como a medusa deste tempo, daquele tempo, em que a luz, ao tornar-se certa, dispara. Fotografia, isto é: dis-parar o instante.
A câmara ganha vida própria, a fotógrafa afasta-se e fica à mercê da sua faca, do gume do seu desejo.
É quando a câmara diz: deste instante te suspendes, ficas aqui encantada.
E a fotógrafa diz: eu sou outra, a minha cúmplice sou eu. E acrescenta, noutro tom: eu brinco com o fogo e o gelo do olhar.
A faca soberana talha uma floresta de sombras, e o caminho abre-se à nossa frente. O tempo corre, o futuro faz sentido com o passado, o presente é cada vez mais vasto, mais fundo. Sabemos que é necessário confiar no impulso com que saltamos em cada instante. A velocidade máxima toca na imobilidade, e fixa-se.
Assim, o laboratório não fecha toda a noite para os que têm urgência na revelação. O mistério sente-se vibrar no silêncio e não se pedem explicações, nem são precisas, quando o corpo se oferece à sua imprevisível metamorfose.
Jogo de abismos. A câmara dispara sobre uma fotógrafa que a si mesma se degola. Mas nós, com ela, observamos instrumentos do renascimento: uma câmara escura, uma lâmina clara, papel e tinta.
Fernando Cabral Martins