Teresa Perdigão
Retratos de Família
Olhar e voltar a olhar a permanência da coisa que se move, que é fugaz e fugidia, que deixa rasto num movediço sombreado.
É o enigma.
A relação entre o claro e o escuro, entre o excesso e a ausência de luz, constrói a indefinição do objectorepresentado, o referente da fotografia de Paula Nobre.
O indefinido conduz o olhar do observador para o que câmara escura captou no espaço doméstico que contémtodas as coisas móveis e imóveis.
O que vê?
O fixo parece nítido. O vazio está na luz e questiona. O sujeito transforma-se em nada.
O tempo longo e pausado dá vida à mesa posta e às personagens reveladas na fluidez da penumbra e na ausência.
Do movimento nascem linhas que tecem a imagem e tornam obscura a nitidez que, em camadas, se arrasta edissolve.
O acto de enquadrar a mesa posta, escolha de quem recebe a caixa viajante, transforma o seu espaço, a sua casa, num “agregado de fios vitais”, numa espécie de devir, num “lugar onde vários aconteceres se entrelaçam”, invisíveis ao olhar.
Permanece o rasto dessas linhas que enlaçam o encontro dos que se sentam à mesma mesa onde o paladar, os sabores, a fragrância e a oferta das primícias enaltecem o momento. Nem palavra, nem gesto, nem sorriso, nem rosto se fixam na impressão que é dada a ver. As histórias estão ausentes da representação da toalha de mesa, o que imprime estranheza ao olhar que atrai o estático e o embalsamado.
Do convívio dos que partilham a ementa fica o testemunho da toalha de mesa, camada que acolhe o repasto familiar, repasto do quotidiano ou de festa, absorvido na intimidade pela caixa viajante e devolvido em património aberto às histórias que as imagens sugerem.
Na transição entre o referente e a fotografia escapam momentos primordiais, saturados pelo tilintar dos copos que se erguem em honra dos convivas. Escapam os lugares queimados pela luz, os excessos que a festa celebra e o brinde exalta.
Olhar e voltar a olhar a imagem e o seu duplo, num segundo acto tautológico de saber e de reflexão.
É o enigma.